Moda, reflexões

“Corona Fashion”, por Paul B. Preciado

“A nova tendência é o look total Chernobil-médico. Lá onde toda relação social é contagiosa, a moda-proteção vira lei.”

“A nova estação primavera-verão chegou à cidade confinada. A primavera do vírus impõe uma segmentação radical entre o interior e o exterior. Em casa, o fascínio dos penteados malcuidados faz esquecer a severidade padronizada do corte de salão. Um novo look eco-tecno-coronário se afirma com o cabelo desgrenhado, barba por fazer e raízes pretas. O estilo largado é a melhor prova do confinamento, e, portanto, da imunidade. E a imunidade é chic. Na roupa, as calças de pijama desbancam o jeans. Os chinelos substituem os tênis.

Na parte externa, a mão nua é substituída pela luva de borracha, branca, amarela ou azul. Qualquer objeto plástico — uma garrafa de água de 6 litros, um guarda-chuva, óculos de mergulho, um separador de páginas— traz em si a possibilidade de se tornar um acessório higiênico. O saco de lixo é o novo prêt-à-porter, tanto nos hospitais como nos asilos e campos de refugiados. O látex se impôs. Epidemiologistas alertam que o plástico é uma das superfícies a que o vírus melhor adere. Mas o plástico protege contra o medo mesmo sem evitar o contágio.

Fora do espaço doméstico a máscara se tornou o preservativo social das massas. O setor têxtil, o mais dependente dos fornecimentos da China, vê sua produção praticamente bloqueada. A China não é apenas o epicentro do vírus, é também o ateliê em que metade das roupas do mundo é costurada. O Inditex, grupo têxtil líder internacional, colapsa nas bolsas de valores. Quem precisa de uma camisa nova no período de confinamento? As principais marcas de moda, Yves Saint Laurent, Balenciaga, LVMH… reciclam seus ateliês para produzir máscaras, aventais médicos e macacões protetores. Apesar de tudo isso, a China continua sendo o maior produtor mundial… de máscaras, até agora.

Os rostos do mundo desaparecem sob a máscara, médica ou de contrabando, caseira ou comprada na Amazon, luxuosa ou barata, certificada ou não certificável, aquela que mais contamina que protege. Acessório de moda por excelência em 2020, a máscara já havia aparecido nos desfiles da semana de moda em Londres, Milão e Paris no início de 2019, antes da crise do vírus ser declarada na Europa: Chanel, Kenzo, Marine Serre, Pitta Mask, Xander Zhou assinaram modelos exclusivos. A higiene se alia ao estilo. No digital reina a selfie, no analógico só há “mascarados”. As feministas dos anos 60 queimaram sutiãs e as transfeministas dos anos 2020 fizeram duas máscaras de cada sutiã. Alguém hoje ousaria afirmar que esconder o rosto com um hijab completo é um sinal antirrepublicano?

Os novos aromas da estação são o perfume neutro e transparente do álcool gel, o frescor reconfortante do detergente e o aroma profundo e picante da água sanitária. A nova tendência é o look total Chernobil-médico. Lá onde toda relação social é contagiosa, a moda-proteção vira lei. Quando a economia permite, e o descaso político não impede, os corpos são cobertos por uma epiderme higiênica impenetrável feita de celulose . O branco é a cor dominante da coleção primavera-verão, com toques de amarelo, azul e laranja. O macacão unissex completo é anunciado como a nova capa impermeável urbana de verão. Coberto com um filme protetor, o humano da era Covid-19 parece um morcego escondido sob suas asas de plástico. Seria o macacão higiênico um totem através do qual o contaminante potencial tenta amenizar o vírus, adotando os atributos do animal contaminante?

As mangas e pernas são largas, a silhueta é curva e contínua, do capuz aos pés, a pele fica invisível. A diferença entre calça, camisa, jaqueta, saia e sapato desaparece. Os códigos que permitem o reconhecimento do corpo humano na sociedade se tornam inoperantes. O humano está desfigurado. Camaleões da era tóxica, invisíveis mas presentes, o humano sem rosto e o vírus são parecidos.

A máscara, o macacão e a generalização dos gestos de proteção são a destruição no campo sensível da relação social tal como a conhecemos até agora. O toque se torna impossível, o sorriso, invisível, o movimento de um quadril é imperceptível.

A pele se converte em órgão interno e privado. O corpo é desfamiliarizado, dessingularizado, deserotizado. O macacão higiênico é muito mais e muito menos que um simples vestido. É uma tecno-pele externa e protetora, sob a qual o corpo perde sua forma única. É o estatuto aberto do corpo, a porosidade da pele, sua capacidade de se relacionar com o exterior, que é negado. É o corpo enquanto organismo vivo que é negado. Os orifícios do corpo, os que são visíveis, como a boca ou o nariz, mas também os que são microscópicos e estão na epiderme, são cobertos e selados. O macacão traz o corpo social diferenciado de volta ao estado larval, o tira do universo do humano e leva tanto para a entomologia quanto para a robótica. As equipes hospitalares que retiram seus macacões em uma sala higiênica são borboletas humanas que emergem de casulos de seda.”

Este texto me foi compartilhado pela grande amiga maravilhosa artista professora Diane Sbardelotto. Foi amor à primeira lida que compartilho pra deixar registrado aqui.

(O texto foi publicado originalmente na Libération no dia 8 de maio, aqui e publicado em português aqui.)

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